NOVAS COMUNIDADES: ONDE DEVERÍAMOS ESTAR

Ronaldo José deSouza   

Cofundador da Comunidade Remidos no Senhor


Não se compreende a origem e a vocação das novas comunidades católicas sem se remeter, de algum modo, ao grande evento que abriu as portas da Igreja ao nosso tempo: o Concílio Vaticano II. Em certo sentido, foi dele que viemos, e é nele que encontramos a base teológica que nos sustenta. O Vaticano II não foi apenas um episódio histórico pontual; ele impulsionou uma profunda renovação de mentalidade e permitiu à Igreja reaproximar-se das raízes do Evangelho. As inovações trazidas pelas novas comunidades não teriam o mesmo respaldo pastoral se não fosse o Concílio. Por isso, toda atitude de resistência ou oposição a ele é, na verdade, um “tiro no pé”. Rejeitar o Vaticano II é como cortar o próprio ramo em que estamos firmados.

A impressão que tenho é que nos atingiu uma espécie de onda anticonciliar, disfarçada de ortodoxia, mas, na verdade, com poder de prejudicar o avanço da evangelização. Chega a ser assustador o modo como movimentos e instituições comumente apontados como sendo sinais da renovação pós-conciliar comportem-se tão intensa e reiteradamente contrários a ela, às vezes sem perceber, aderindo a um comportamento pastoral que mina e suprime por dentro a sua própria identidade. A despeito das virtudes que certo tipo de tradicionalismo possa apresentar, o contexto parece exigir que os responsáveis pelas novas comunidades se preocupem em revisitar, antes, as grandes linhas conciliares, visando aprofundar a sua compreensão e atualizar o seu conteúdo. Isso poderia ser feito através de uma releitura de seus textos principais.

O Concílio Vaticano II produziu documentos de imensa riqueza, mas quatro deles — as “constituições” — revelam o coração de sua inspiração transformadora. A Dei Verbum, por exemplo, revalorizou a Bíblia, afirmando, entre outras coisas, que a Igreja “venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor” e assegurando a necessidade de que “os fiéis tenham acesso patente à Sagrada Escritura” (DV, 21-22). Essa constituição representou um marco decisivo na evangelização: a Palavra de Deus voltou a ocupar o centro da vida e da fé cristã. A nós, novas comunidades, coube a graça de contribuir significativamente para que essa redescoberta acontecesse na prática, devolvendo a Bíblia ao coração da espiritualidade católica. Outra grande linha renovadora do Concílio Vaticano II brotou da Lumen Gentium, que resgatou a imagem da Igreja como Povo de Deus e recordou a vocação universal à santidade. Superou-se, assim, a visão estreita da Igreja como “sociedade perfeita” — uma estrutura hierárquica e autorreferencial — para reencontrar o mistério de uma comunhão viva, plural, animada pelo Espírito Santo e voltada à missão.

A Lumen Gentium devolveu aos leigos sua dignidade batismal e reconheceu não só a existência, como também a utilidade dos carismas particulares e especiais (cf. LG, 12). Sem essa renovação, o chamado “protagonismo do laicato” seria uma simples retórica, mais do que já é em alguns contextos. Uma terceira indicação significativa do Vaticano II chegou até nós através da Gaudium et Spes, que propôs uma nova relação entre a Igreja e o mundo. Essa constituição admitiu que o século, longe de ser um campo de perdição, é amado por Deus e habitado por sua presença. Desse modo, “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e mulheres de hoje […] são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS, 1). O mundo não é um inimigo, mas um interlocutor. A Igreja é chamada a escutar e a dialogar, a discernir a ação de Deus na história humana e a ser, nessa história, fermento e luz. Essa abertura supõe também reconhecer a legítima autonomia das realidades terrenas (GS, 36). Por sua vez, a Sacrosanctum Concilium promoveu uma necessária renovação da liturgia, colocando em relevo o mistério pascal — paixão, morte e ressurreição de Cristo – e superando o excesso de rubricas e o ritualismo com o qual haviam se deixado caracterizar as ações litúrgicas, especialmente a celebração da missa. A participação do povo, o uso das línguas vernáculas, a valorização da liturgia da Palavra e a simplificação dos ritos não foram concessões à modernidade, mas um modo de tornar a Eucaristia mais acessível a todos, pois ela é o centro e o vértice da vida da Igreja (EE, 31).

É indispensável recordar o quanto o movimento carismático tornou as missas mais expressivas, alegres e participativas, a despeito de alguns excessos, cuja maior responsabilidade, em última análise, é de quem preside as celebrações. As grandes linhas decorrentes dessas quatro constituições delineiam o eixo vital do Concílio Vaticano II e, consequentemente, o horizonte em que deveriam caminhar as novas comunidades. Não é prudente que nos afastemos do centro de nossa vivência eclesial, substituindo, por exemplo: a) o contato direto com a Sagrada Escritura pela escuta diária e adesão fidedigna a pregadores midiáticos; b) a visão de uma Igreja ministerial por um clericalismo disfarçado de tradição; c) a postura compassiva e dialogal com o mundo pela militância política, requisitando que o Estado favoreça a Igreja e respalde a sua doutrina; ou, ainda, tratando as pessoas como se elas fossem meras categorias (feministas, homossexuais, bandidos, extremistas, etc); e d) a promoção de uma liturgia vivaz e entusiasta por um rigorismo gestual e apego detalhista. A meu ver, o futuro das novas comunidades dependerá, em larga medida, da perspicácia dos líderes em perceber o quanto seus ambientes estão sendo afetados por um discurso que fere a natureza delas e ofusca seu caráter de “novidade”. Além disso, do esforço e da coragem para reencontrar as fontes das quais brotaram, a saber, as indicações renovadoras do Concílio Vaticano II. Em vez de promover uma retração pastoral, nosso papel é fomentar o espírito conciliar, aprofundando-o ainda mais. Passados mais de sessenta anos desse “novo pentecostes institucional”, deveríamos estar, entre outras coisas: elaborando novos métodos e linguagens que nos permitissem embrenhar no mundo; repensando nossos paradigmas evangelizadores para nos colocar “em saída”; discutindo como realçar o protagonismo dos leigos e promover a centralidade da Palavra e da Eucaristia na vida do fiel comum. Erram aqueles que criam suas próprias bolhas presenciais ou midiáticas e com elas se contentam, apenas pelo fato de conseguirem, assim, manter um pequeno ou grande séquito de admiradores acríticos. Esses são os mesmos líderes que concentram sua pregação em temas secundários ou desconectados da realidade, tais como a moral desprovida de misericórdia e a disciplina sem bom senso, como se a verdade cristã fosse um corpo doutrinário e não uma pessoa (cf. Jo 14, 6). Geralmente, se comprazem em manter homens e mulheres sob sua quase total influência, alimentando suas carências e infantilizando-os por meio de discursos que conferem segurança psíquica, mas inibem o contato com o mistério tanto humano quanto divino. Desse modo, obscurecem em muitos a visão do Reino dos Céus e privam os tempos atuais da luz que os cristãos poderiam estar projetando no cerne de um mundo necessitado de Deus. Considerando a história das novas comunidades até aqui, deveríamos estar num patamar mais elevado de reflexão e não num processo de retração pastoral. Poderíamos, hoje, estar contribuindo mais para a busca de mecanismos que tornem efetiva a sinodalidade, a participação dos leigos, a corresponsabilidade das mulheres no governo da Igreja, a revisão das estruturas formativas, a abertura ecumênica e o diálogo inter-religioso. No entanto, parece que estamos gastando energia em disputas de poder, competições midiáticas e polarizações ideológicas que apenas obscurecem o rosto de Cristo. E, ainda, com nossos discursos e práticas, reforçando estruturas pastorais piramidais, balizando excessivamente a ação de leigos e sacerdotes, empurrando a mulher para o espaço doméstico, referendando a formação seminarística clássica naquilo que tem de mais obsoleto e substituindo o ecumenismo por uma catequese triunfalista e intolerante.

Apesar de tudo, não é o pessimismo que deve guiar nossa leitura do presente. Ainda há tempo de resgatar um processo de discernimento e escuta baseado no espírito do Concílio Vaticano II. O Evangelho continua a ter força para transformar vidas, e a Igreja continua sendo chamada a ser sinal do amor de Deus no mundo. O caminho é o mesmo de sempre: voltar às origens, às raízes, às fontes. Para nós das novas comunidades, não será tão difícil redescobrir a Palavra, a comunhão, o serviço, o diálogo, a liturgia viva e o testemunho encarnado. Porque tudo isso está escrito em nosso DNA. Ainda vamos cometer muitos erros — e talvez devamos aceitá-los como parte do trajeto — mas o importante é não perder de vista a direção: anunciar Cristo de modo autêntico, perceptível, credível e fecundo para os homens e mulheres do nosso tempo.

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